HPV: Câncer do colo do útero pode deixar sequelas irreversíveis, diz oncologista

26 de Novembro de 2015 |

“A parte mais difícil foi a cirurgia. Não foi doloroso nem demorou muito tempo, mas o problema é que você não sabe se foi retirado tudo ou se vai precisar de outra cirurgia.”

Menos de um mês após uma cirurgia para retirada de um câncer do colo do útero, Maria de Fátima Moreira dos Santos de 53 anos, que mora no interior de São Paulo, lembra de como enfrentou a doença desde quando a descobriu, dias antes da cirurgia. A operação feita em caráter de urgência retirou um tumor maligno, mas doença deixou sequelas irreversíveis na vida da dona de casa.

“Bom, eles falam que no caso pode voltar, mas que já está tudo limpo, não tenho mais nada que eu posso viver uma vida tranquila. Você fica pensando, ai se volta então você não tem sossego, sua cabeça fica com esse pensamento. Também no meu caso quando descobri eu comecei a entrar em depressão tudo. Não pode ficar pensando porque senão a depressão vem”.

O câncer do colo do útero é o terceiro tipo de câncer que mais mata mulheres no Brasil. Segundo dados do Instituto Nacional do Câncer, no período quase 20 anos, de 1994 até 2013, morreram mais de 85 mil mulheres vítimas do câncer do colo do útero. É como se em 20 anos no Brasil, o equivalente a um Maracanã superlotado de mulheres morressem vítimas da doença. O cirurgião Oncológico do Instituto Nacional de Câncer, Gustavo Iglesias, explica como o tratamento do câncer do colo do útero é sensível e complicado. Para o especialista, mesmo com a cirurgia, a mulher que sofre um câncer do colo do útero corre riscos de ter sequelas sérias para o resto da vida.

“Quando o câncer do colo do útero se encontra restrito ao colo do útero, um tumor de um tamanho não muito grande, a preferência de tratamento em geral é pelo tratamento cirúrgico, que consiste na retirada do útero, mas é uma cirurgia diferente da retirada do útero que se faz com a doença benigna por mioma, ou para algo semelhante. A gente chama de histerectomia radical. É uma cirurgia de grande porte e que envolve a manipulação de estruturas em volta que pode levar um grande prejuízo para qualidade de vida. Por exemplo; envolve a manipulação do ureter, que é o canal que vai do rim pra bexiga, envolve a manipulação do nervo que controla a função da bexiga, então com frequência as mulheres que fazem a cirurgia para o câncer do colo do útero, mesmo em estágios relativamente iniciais podem experimentar sequelas, efeitos colaterais relacionados ao aparelho urinário até para vida toda em uns casos”.

A farmacêutica brasiliense de 28 anos, Gabriela, que pediu para ter o sobrenome preservado, descobriu o vírus através desse exame do Papanicolau e acredita que, em alguns casos, como o dela, a paciente não tem nenhum sinal de que há algo errado no corpo.

“Eu não tive nenhum sintoma quando eu descobri que estava com HPV. Eu não tive problema nenhum. E eu fui fazer um exame de rotina, a médica foi fazer a coleta e achou resquícios e ela quis fazer um exame mais detalhado e foi ai que ela descobriu. Então assim nem no exame preventivo de rotina se eu não tivesse uma assistência boa, não teria sido descoberto. Então eu acho que é falta mesmo, de primeiro que a doença é assintomática, pelo menos em mim foi assintomática e segundo que falta uma pouco essa consciência de fazer sempre o tratamento de prevenção e acho que quando descobre já está muito mais avançado.”

Para ter uma noção do risco da doença, o médico Gustavo Iglesias explica a relação do vírus HPV com o câncer do colo do útero.

“Vou colocar de uma maneira simples, porque eu acho que todo mundo conhece a relação do cigarro com o câncer de pulmão, todo mundo sabe que quem fuma pode ter câncer de pulmão. A relação da infecção pelo HPV com o câncer de colo uterino é ainda mais forte do ponto de vista estatístico. Se nós pudéssemos, teoricamente, extinguir de forma total e completa a infecção pelo HPV, nós provavelmente extinguiríamos também a incidência do câncer de colo do útero. Se tornaria uma doença raríssima absolutamente excepcional.”

Ainda de acordo com o especialista em câncer Gustavo Iglesias, a vacina contra o Papiloma Vírus é a oportunidade que as meninas têm de se tornarem livres do câncer de colo uterino no futuro.

“Hoje nós temos a vacina que é um avanço assim absolutamente fantástico, a gente que trabalha com outros cânceres, além de câncer de colo uterino, gostaria de um dia ter uma vacina que oferecesse de uma maneira tão simples, de prevenir um câncer, quanto a vacina do HPV oferece para o câncer do colo uterino. É uma arma assim fantástica.”

A vacina é disponibilizada gratuitamente nas Unidades Básicas de Saúde do SUS ou em escolas parceiras. Ela foi introduzida no calendário nacional de vacinação no ano passado para atender meninas de 11 a 13 anos de idade. Este ano, o Ministério da Saúde está priorizando a vacinação de crianças e adolescentes de 9 a 11 anos. As meninas e adolescentes com 12 e 13 anos, que ainda não tomaram a primeira ou a segunda dose, também devem procurar as unidades de saúde para atualizarem o cartão de vacinação. A criança ou a adolescente deverá tomar três doses para completar a proteção. Quem recebeu a primeira deve receber agora a segunda dose, administrada seis meses depois da primeira, e a terceira, cinco anos após a primeira dose. Se você é mãe, pai ou responsável por menina nesta idade, leve-a a uma Unidade de Saúde e leve junto o cartão de vacinação. A vacina é o único meio de garantir a proteção contra o HPV pelo resto da vida. Obtenha mais informações sobre a vacina contra o câncer do colo do útero e o HPV em uma unidade de saúde mais próxima de sua casa e no portal do Ministério da Saúde na Internet, www.saude.gov.br/hpv.


Fonte: Blog: Maois FM